Matéria Gazeta de São João - 18/02/2012

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MANIAS

Um homem bem vestido chegou próximo ao rio e pegou três pedras lisas, ovaladas e colocou-as no bolso. Na cidade deparou-se com outros homens que conversavam à porta de uma barbearia e disse: “Encontrei três pedras de ouro.” Mostrou-as sobre a palma da mão. Os homens riram dizendo que não se tratava de ouro, mas pedras normais do leito do rio. Como não tinha tempo para discussão guardou-as abruptamente no bolso.

O homem andou mais alguns metros e se deparou com duas mulheres na calçada. Delicadamente pediu desculpas pela intromissão e disse-lhes que havia encontrado no leito do rio da cidade alguns diamantes. Tirou as pedras do bolso e mostrou-as às senhoras. Nenhum argumento houve diante da desconfiança. Tiveram que responder quando ele enfatizou a beleza dos diamantes. “Mas, são apenas pedras do leito do rio.” O homem virou as costas e seguiu adiante.

Por acaso, chegou à prefeitura e insistiu em falar com o prefeito sobre sua descoberta. Insistiu, insistiu, gritou, até que o prefeito, preocupado com o escândalo, resolveu atendê-lo. Contou, depois de fechada a porta do gabinete, sobre a descoberta das três pedras de safira. Mostrou-as. O prefeito, primeiro inquiriu sobre o domicílio eleitoral, depois procurou convencê-lo, com a habilidade natural que tinha para tratar de assuntos delicados, de que aquelas eram pedras simples do leito do rio.

O homem saiu do gabinete e dirigiu-se à praça para poder descansar. Sob uma árvore adormeceu acordando noite alta. Ainda deitado no banco levou a mão ao bolso para ver se as pedras estavam bem. Levantou-se rapidamente ao verificar que haviam sumido. Procurou em todos os bolsos e sob o banco. Um mendigo que passava, percebendo seu desespero, questionou o que estava procurando. Vacilou por um instante, mas contou o ocorrido. O mendigo tirou três pedras do bolso e mostrou-as ao homem. “São minhas – disse ele. Uma de ouro, um diamante, a outra safira.” O mendigo, que era homem de bem, devolveu-as ao dizendo que as encontrara em uma lata de lixo quando buscava uma refeição.

Espantou-se o homem ao saber que o mendigo pegava suas refeições no lixo. Em agradecimento o levou o mendigo no melhor restaurante da cidade e pediu um lauto jantar. O garçom colocou-os em uma mesa no fundo para evitar o constrangimento da presença do mendigo. Na hora da conta, o homem tirou uma das pedras do bolso e a deu ao garçom. O garçom, achando que aquilo era uma brincadeira, questionou sobre o pagamento. “Com esta pedra paga-se tudo e sobra muito dinheiro.” Indignado o garçom chamou o dono do restaurante, que chamou os seguranças, que chamou a polícia, que os levou para a delegacia.

O delegado soltou o mendigo, já que ficou confirmado que era apenas um convidado e deixou detido o homem com suas pedras. O médico da cidade, depois de acurado exame, atestou por sua insanidade. Diante do pequeno dano causado, um jantar no restaurante mais caro da cidade, o homem foi liberado para que fizesse tratamento no sanatório da cidade vizinha. As pedras ficaram fazendo parte integrante do processo devidamente arquivado. Quando a ambulância parou para que tomassem um café o homem olhou para o chão e pegou um pequeno pedaço de madeira quebrando-o em três partes e colocou-os no bolso. No sanatório o médico que já o conhecia, questionou: “Ainda brincando com suas pedrinhas?” “Não Doutor, já saí dessa neura. – respondeu.” Com a mão no bolso, apertava os três pedaços de madeira.

 Fernando Dezena

13/02/2012

terça 21 fevereiro 2012 11:31


Rapidinha da sexta-feira

Daqui a pouco rumarei para passar o carnaval em Águas da Prata. Para sair de São Paulo o que mais me preocupa é a Marginal próximo ao Sambodromo. Acho que optarei por um caminho alternativo. Depois quatro dias de descanço. Será? Acho que não. O gostoso do carnaval é a farra então boa farra,quer dizer, carnaval a todos. Bye Bye

sexta 17 fevereiro 2012 11:45


poema

palavras faltaram
abstive-me para sempre 
e na eternidade sou consumido pela lembrança
que às vezes de subto brota 
outras cala longamente
neste velar fica o espectro do que não deveria conter
e taciturna fica a dor
a névoa que inebria e
que quando rompe
é mais liberdade que martírio
trazendo-me assim força 
para que novamente em casulo
possa me consumir diante do silêncio

segunda 13 fevereiro 2012 18:40


Matéria Gazeta de São João - 11/02/2012

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A HORA

As pessoas se amontoavam na parada do ônibus. O dia não chegara a por os olhos por detrás dos prédios e os postes tardios ainda iluminavam as calçadas e ruas. Carros em disparada, rumando quem sabe para onde, teimavam em seguir, em virar à direita, em parar repentinamente muito próximo. Toda a segunda-feira era uma terça-feira que não mudava nos demais dias. O trabalho dava a migalha para a sobrevivência. Quando o ônibus parou hesitou entre entrar e caminhar. Caminhou pela rua enfileirada de lojas. Observou por um instante a mulher que se abaixava para levantar a emperrada porta, homens apressados com seu café na padaria, o gari a juntar o lixo dos homens execrados pela noite. O cruzamento atravessou sem se dar conta de quem era a vez. Buzinas e frenagens não o incomodaram. Diante de um grande portal, totalmente descerrado para receber os clientes, observou peixinhos em um aquário multicolor. Luzes, bolhas e enfeites. Tentou com a mão atraí-los para perto de si. “Não pode tocar.” Advertiu o homem da porta. Cabisbaixo saiu silente com a frase a lhe martelar. “Não pode tocar.” Perdeu a noção do tempo nas voltas pelas ruas imperceptíveis. Queria comer algo. No canto de um poste viu restos de frutas amontoados. Pegou o abacaxi num mastigar sem compromisso. Lembrou-se de Maria Angélica. Soltou um grito e em disparada enfrentou a multidão que se aglomerava naquele instante. Bufava como um animal raivoso. Gritava palavra de ordens desconexas e girava os braços sobre a cabeça como a querer enfrentar o invisível. Alguém chamava seu nome e o nome estourava seu tímpano. Era o nome estourando seu tímpano. Era o infinito das pessoas consumindo sua existência. Esgueirou-se por um beco fétido que abrigava homens, mulheres e crianças consumidos pelas pedras. Alguém agarrou sua perna. Caiu sobre dejetos humanos de fezes e urina. Homens tentavam arrancar seu velho relógio. Desvencilhou-se de forma abrupta e ganhou a avenida depois do beco, limpa, iluminada, cheia de transeuntes alheios aos homens que roubavam relógios nos becos. Novamente um grito ensurdecedor: “Maria Angélica”. Em transe, alucinado agarrou-se ao poste escorregando para a calçada, agarrou-se às pernas das pessoas que o rejeitavam, agarrou-se como se fosse a hora do juízo final. Sentado no banco da delegacia, algemado, com marcas de borrachas pelo corpo mirava o infinito. Na sala do delegado nada disse. Quando, já noite alta, seu irmão chegou, abraçou-o ternamente sem saber que era hora.

segunda 13 fevereiro 2012 16:18


poesia

CIDADE I

no ônibus a mão que foi
posta no corrimão
toca a minha em silêncio
Talvez de um homem
talvez da adúltera
talvez da anciã à procura do tempo
pelo caminho
não vejo os rostos
que se alternam
e balançam junto a mim no pêndulo das horas
são pessoas, simplesmente
umas fedem
outras falam
outras, como eu
atravessam a cidade

de repente
olho o ônibus vazio
o motorista grita:
- ponto final!
e como a tentar conter o mundo
permaneço com minhas lembranças
apenas por um instante

quinta 09 fevereiro 2012 18:00


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