A HORA
As pessoas se amontoavam na parada do ônibus. O dia não chegara a por os olhos por detrás dos prédios e os postes tardios ainda iluminavam as calçadas e ruas. Carros em disparada, rumando quem sabe para onde, teimavam em seguir, em virar à direita, em parar repentinamente muito próximo. Toda a segunda-feira era uma terça-feira que não mudava nos demais dias. O trabalho dava a migalha para a sobrevivência. Quando o ônibus parou hesitou entre entrar e caminhar. Caminhou pela rua enfileirada de lojas. Observou por um instante a mulher que se abaixava para levantar a emperrada porta, homens apressados com seu café na padaria, o gari a juntar o lixo dos homens execrados pela noite. O cruzamento atravessou sem se dar conta de quem era a vez. Buzinas e frenagens não o incomodaram. Diante de um grande portal, totalmente descerrado para receber os clientes, observou peixinhos em um aquário multicolor. Luzes, bolhas e enfeites. Tentou com a mão atraí-los para perto de si. “Não pode tocar.” Advertiu o homem da porta. Cabisbaixo saiu silente com a frase a lhe martelar. “Não pode tocar.” Perdeu a noção do tempo nas voltas pelas ruas imperceptíveis. Queria comer algo. No canto de um poste viu restos de frutas amontoados. Pegou o abacaxi num mastigar sem compromisso. Lembrou-se de Maria Angélica. Soltou um grito e em disparada enfrentou a multidão que se aglomerava naquele instante. Bufava como um animal raivoso. Gritava palavra de ordens desconexas e girava os braços sobre a cabeça como a querer enfrentar o invisível. Alguém chamava seu nome e o nome estourava seu tímpano. Era o nome estourando seu tímpano. Era o infinito das pessoas consumindo sua existência. Esgueirou-se por um beco fétido que abrigava homens, mulheres e crianças consumidos pelas pedras. Alguém agarrou sua perna. Caiu sobre dejetos humanos de fezes e urina. Homens tentavam arrancar seu velho relógio. Desvencilhou-se de forma abrupta e ganhou a avenida depois do beco, limpa, iluminada, cheia de transeuntes alheios aos homens que roubavam relógios nos becos. Novamente um grito ensurdecedor: “Maria Angélica”. Em transe, alucinado agarrou-se ao poste escorregando para a calçada, agarrou-se às pernas das pessoas que o rejeitavam, agarrou-se como se fosse a hora do juízo final. Sentado no banco da delegacia, algemado, com marcas de borrachas pelo corpo mirava o infinito. Na sala do delegado nada disse. Quando, já noite alta, seu irmão chegou, abraçou-o ternamente sem saber que era hora.






























Comentários